Dom Antônio: “Nem Jesus conseguiu unanimidade”



Em entrevista exclusiva, Dom Antônio Carlos conta como está sendo sua experiência com o pastoreio na Diocese de Caicó, fala sobre sua rotina episcopal, o rodízio de padres nas paróquias, as mudanças no Sistema Rural de Comunicação e sobre alguns assuntos que ele se envolveu que tiveram repercussão além do esperado.

Dom Antônio Carlos, Bispo de Caicó. Foto: Dyego Leandro.

Gláucia Lima: Dom Antônio, como está sendo a experiência com o bispado?
Dom Antônio: Iniciei o meu pastoreio aqui na Diocese de Caicó no dia 24 de maio de 2014. Nesses três anos e meio tenho vivido uma experiência desafiadora e bonita. Sou carioca, filho de pais alagoanos, por isso carrego no sangue o DNA do nordeste, mas ao mesmo tempo trago o sangue do Rio. Cada vez mais tenho aprendido a amar este povo com sua cultura. Admiro muito a capacidade de resiliência que o seridoense tem diante de tantas dificuldades, sobretudo da crise hídrica. É muito bonita a religiosidade popular nesta região, principalmente as novenas dos padroeiros.
GL:   É uma tarefa fácil ser bispo aqui na Diocese de Caicó?
DA: A Diocese de Caicó tem um clero que tem um grande senso de eclesialidade, ou seja, de pertença à Igreja, por isso sabe muito bem acolher um bispo que vem de outra região. Nossa diocese tem vários desafios, mas não é uma Diocese problemática. Os desafios são próprios da missão: transformar a religiosidade em espiritualidade, fazer que não haja uma separação entre fé e vida, entre dimensão espiritual e social; ajudar o povo a conviver com a seca; dar uma formação integral aos futuros padres da nossa diocese, ter uma formação permanente para o clero e as religiosas etc.
GL:   Como é a rotina de um bispo?
DA: Ordinariamente temos missas diárias nos seminários, no mosteiro, no abrigo, na Fazenda da Esperança. Diariamente temos reuniões e atendimentos aos fiéis, etc. Constantemente somos convidados a visitar as paróquias para as festas dos padroeiros, para crisma, para encontros e tantos outros motivos. Também temos os compromissos envolvem o nosso regional nordeste 2, que engloba os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, totalizando 21 dioceses. A sede do nosso regional se encontra em Recife, por isso, algumas vezes por ano temos naquela cidade reuniões. Sou o bispo referencial para a juventude neste regional e também tenho compromissos decorrentes dessa função. Anualmente temos a assembleia geral ordinária da CNBB, em Aparecida, no estado de S. Paulo.
GL: Desde que assumiu a Diocese, o senhor já promoveu duas vezes mudanças nas paróquias. Por que essas mudanças são necessárias?
DA: Na verdade foram quatro mudanças, sempre no final do ano, desde 2014. Por que acontecem as mudanças?  Vários motivos podem provocar uma transferência. Todo pároco recebe uma provisão por seis anos. No final desses anos ela pode ser renovada ou não. Outros padres são transferidos porque sentem necessidade ou porque são necessários em outras funções. São inúmeros os motivos. As mudanças são boas, pois começar um novo trabalho é sempre um desafio, tanto para o padre como para o povo. Numa época que a nossa Diocese tinha poucos padres, as transferências não aconteciam com frequência, pois tínhamos poucas opções. Hoje, graças a Deus, temos um bom número de padres. A chegada de novos padres também provoca essas mudanças, pois precisamos abrir espaço tanto para os que já estão no ministério como para os que estão chegando. O papa Francisco nos fala de uma Igreja em saída. Esta Igreja em saída exige que os seus ministros também estejam em saída.  Este processo se iniciou no episcopado de Dom Jaime, foi levado adiante por Dom Delson e agora estou dando continuidade.
GL:       Há alguma repercussão interna, no clero, os padres são avisados previamente ou é o senhor quem decide e já orienta a mudança?
DA: Há sempre uma repercussão interna, mas ela é muito mais positiva do que negativa. Primeiramente eu converso com o Vigário Geral e com os vigários episcopais, depois escuto os padres envolvidos e por último conversamos com o conselho presbiteral, que é formado por doze padres.  Normalmente o clero é receptivo, são poucos os casos que acontecem resistências fortes. Acho que isso é expressão da comunhão do nosso clero.
GL:       Houve também mudanças no Sistema Rural de Comunicação. Quem assume? A rádio terá outro perfil na nova administração ou segue a mesma linha?
DA: O Pe. Welson Rodrigues do Nascimento irá assumir a função de diretor do Sistema Rural de Comunicação. Cada diretor tem a liberdade para estabelecer o estilo do seu trabalho. Com certeza o Pe. Welson dará o seu toque, assim como Monsenhor Tércio e Pe. Ivanoff deram o seu. Pe. Welson há anos que tem trabalho com as nossas rádios, inicialmente em Parelhas, e posteriormente, em Currais Novos. Na medida em que ele for entrando na dinâmica do trabalho, com certeza verá mais de perto os desafios.
GL:      E Padre Ivanoff vai mesmo morar em Roma?
DA: O Pe. Ivanoff estava há nove anos nesta função, faltando um ano para acabar o segundo quinquênio, pois a nomeação para esta função tem a duração de cinco anos, podendo ser renováveis. Ele fez 20 anos de ministério ordenado e sentiu a necessidade de dar uma parada para fazer uma reciclagem. Ele irá para a América Central, no primeiro semestre fará um curso para acompanhantes psico-histórico-espirituais na Guatemala. No segundo semestre fará uma experiência missionária numa comunidade rural da Nicarágua.
GL:      2018 é ano eleitoral. O senhor é visto por parte da população como um defensor de posições políticas? Qual deve ser sua postura como pastor da igreja em um momento pré-eleitoral?
DA: Conforme Aristóteles, o homem é um animal político. Entendemos política como a arte e a ciência do bem comum. A partir desses conceitos teremos que admitir que toda pessoa é política. Outra coisa é a política partidária ou a politicagem.  Um pastor não deve fazer política partidária, pois numa comunidade de fé existem fieis com as mais variadas opções. A politicagem, que é a política para beneficiar interesses próprios não deve ser feita por nenhum cristão autêntico.  A Igreja tem uma doutrina social, que foi sendo construída a partir de 1891. Um bispo quando se posiciona na questão social levará sempre em conta a evolução dessa doutrina. A doutrina social da Igreja defende o bem comum, a partir daqueles que são os mais vulneráveis na sociedade, que são os pobres e os excluídos. Esta defesa é um imperativo evangélico, pois foi sempre a postura de Jesus Cristo.
GL:      Qual orientação os padres devem seguir? Eles podem assumir publicamente suas posições políticas?
DA: Este raciocínio que apresentei para a postura do bispo nos momentos de eleições serve também para orientar os padres nas suas posturas nesses momentos de campanhas eleitorais.
GL:   E um padre que, porventura, deseje se candidatar, ele deve se afastar das atividades eclesiásticas?
DA: Há alguns anos que a Igreja no Brasil tem defendido que aqueles padres que vierem a se candidatar deverão ficar afastados das suas funções eclesiásticas, durante a campanha e o mandato, caso sejam eleitos. Isso acontece para que não caiamos na tentação de misturando os discursos, manipularmos o Evangelho.
GL:   Mesmo não sendo ainda confirmado, mas tudo leva a crer que uma religiosa cometeu suicídio em Caicó. Sendo o senhor um baluarte no combate ao suicídio, como sentiu esse acontecimento? A Igreja assiste de que forma os seus servos que passam por momentos assim?
DA: O suicídio no nosso Seridó é um fenômeno tão grave quanto a nossa crise hídrica. Ele não é problema de fé, nem problema moral. É uma questão de saúde. Por ser uma questão de saúde, nenhuma categoria está isenta de passar por esta situação, inclusive nós, homens e mulheres consagrados. Cabe a Igreja, assim como a toda sociedade, estar atenta aos sinais que alguém com ideias suicidas costuma emitir e tentar se antecipar ao ato. A Igreja Católica junto com outras igrejas, com as universidades estamos nos empenhando para que em breve abramos aqui o CVV (Centro de Valorização da Vida), com um plantão de 24h, com pessoas capacitadas que estarão abertas a atenderem as ligações de pessoas que precisam desabafar.
GL:    Recentemente o Rio Grande do Norte ganhou 30 novos Santos. Qual o impacto disso para a Igreja?
DA: Esses santos canonizados pelo papa Francisco no dia 15 de outubro foram 2 padres e 28 leigos que por causa da sua fé foram martirizados pelos holandeses calvinistas, no sec. XVII. Duas lições poderíamos de imediato tirar deste fato: a fé deve ser testemunhada. Martírio significa testemunho. Segundo lição: nunca mais a intolerância, seja ela por qualquer motivo. A intolerância cega, a intolerância mata.
GL:   Dom Antônio, o senhor se envolveu em assuntos que tiveram repercussão acima do esperado. O Senhor se sentiu incompreendido ou vítima de má interpretação por parte dos paroquianos?
DA: Unanimidade é um conceito mais teórico que real. Nem Jesus conseguiu a unanimidade. “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”. As divergências muitas vezes aparecem a partir de que ponto estamos enxergando, por isso é normal surgirem divergências. As divergências não podem servir de motivação para gerar intolerância. O que diverge de mim, não necessariamente é meu inimigo. Precisamos crescer na arte de conviver com as divergências, de construir a unidade na diversidade, de constantemente nos perguntarmos mais pelo que nos une do que por aquilo que nos separa. Cada vez precisamos ser construtores de pontes em vez de construirmos muros, como nos lembra tanto o papa Francisco. Nessa perspectiva procuro entender os conflitos que surgem por causa das divergências de opiniões.  Gosto muito de uma citação que o papa Francisco faz de Martin Luther King no nº 118 do Documento Amoris Laetitia: “Isto lembra-me Martin Luther King, quando reafirmava a opção pelo amor fraterno, mesmo nomeio das piores perseguições e humilhações: «A pessoa que mais te odeia, tem algo de bom nela; mesmo a nação que mais odeia, tem algo de bom nela; mesmo a raça que mais odeia, tem algo de bom nela. E, quando chegas ao ponto de fixar o rosto de cada ser humano e, bem no fundo dele, vês o que a religião chama a “imagem de Deus”, começas, não obstante tudo, a amá-lo. Não importa o que faça, lá vês a imagem de Deus. Há um elemento de bondade de que nunca poderás livrar-te. (…) Outra forma de amares o teu inimigo é esta: quando surge a oportunidade de derrotares o teu inimigo, aquele é o momento em que deves decidir não o fazer. (…) Quando te elevas ao nível do amor, da sua grande beleza e poder, a única coisa que procuras derrotar são os sistemas malignos. Às pessoas que caíram na armadilha deste sistema, tu ama-las, mas procuras derrotar o sistema. (…) Ódio por ódio só intensifica a existência do ódio e do mal no universo. Se eu te bato e tu me bates, e eu te devolvo a pancada e tu me devolves a pancada, e assim por diante… obviamente continua-se até ao infinito; simplesmente nunca termina. Nalgum ponto, alguém deve ter um pouco de bom senso, e esta é a pessoa forte. A pessoa forte é aquela que pode quebrar a cadeia do ódio, a cadeia do mal. (…) Alguém deve ter bastante fé e moralidade para a quebrar e injetar dentro da própria estrutura do universo o elemento forte e poderoso do amor».
GL:   Caicó encontra-se numa situação de fragilidade dos serviços, sobretudo, de assistência à saúde. Essas necessidades chegam à igreja de uma forma direta?
DA: Com certeza nos momentos de maiores privações, os pobres normalmente procuram as Igrejas, pois ainda percebem nelas uma possibilidade de socorro. A saúde com certeza é uma das dimensões com mais fragilidades hoje no nosso país, sobretudo, nesse momento que se cortam os gastos com o social e se aumentam os gastos para garantir os votos dos aliados visando aprovar medidas que beneficiam interesses de minorias ou livram políticos de acusações de corrupção. Com certeza isso é um clamor que chega aos céus e Deus com certeza nos questiona pelo sangue derramado de tantos irmãos.
GL:   O que deseja aos leitores e caicoenses para o ano que vai iniciar? 
DA: O ano novo se aproxima. É sempre oportunidade de recomeço. Ele só será novo se formos capazes de reconhecer o que envelheceu na nossa vida e que precisamos deixar para trás, renovando o nosso coração e a nossa mente. Estamos vivendo um momento complexo da história, que para alguns poderá ser visto como o fim da linha, mas para outros será a possibilidade de dizermos: basta, vamos fazer diferente. Depende de nós. Dentro de nós está o ano velho e o novo, dependerá de cada um ver qual será aquele que viverá, ou aquele que vamos alimentar. Para nós cristãos, um mundo novo é possível, desde que seja feito no espírito daquele que faz nova todas as coisas: Jesus Cristo.
Publicada na Revista Collecione.

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